domingo, 12 de fevereiro de 2017

Viagens no Mundo de Deus... ou da Vida

     Podia ser nome de agência de viagens; é antes (e também) percurso de vida para um guia em busca do caminho.

    Por mais desconcertante, desencantado, desesperado e desiludido, é percurso a fazer: seja o do período da II Grande Guerra (textualmente representado) seja o de um outro qualquer momento (mais real) pintado das cores da crise e da descrença a dar lugar a tonalidades de sobrevivência. Ainda assim,é percurso com tons de vida, por maior que seja a adaptação conformada ao possível. 
     Esta é "A Noite da Iguana", do norte-americano Tennessee Williams (1911-1983), peça estreada na Broadway em 1961 e inspirada num conto escrito em 1946 com o mesmo título. Numa encenação de Jorge Silva Melo e numa coprodução de Artistas Unidos, está em palco no Teatro São João até ao próximo dia 26.
    Ao levantar do pano, Lawrence Shannon (Nuno Lo-pes) é apresentado ao especta-dor como um ex-reverendo, não despadrado, mas afastado da igreja por escândalos diversos - nomeadamente a entrega a relações sexuais com jovens adolescentes ou a produção de sermões que mostram a imagem de Deus ocidental como um "delinquente senil". Institucionalizado por dese-quilíbrios nervosos, Shannon consegue um emprego como guia turístico de uma agência de viagens de segunda categoria e acompanha um grupo de mulheres até a um hotel barato e boémio da Costa Verde, na costa oeste do México. Aí, junto de Maxine Faulk (que vive a liberdade obtida com a morte do marido Fred e que sensual e sedutoramente procura a companhia de Shannon), experiencia uma existência feita de conflitos morais, profissionais, pessoais, num confronto febril com os seus impulsos e anseios, as suas limitações e o que uma assombração (a sua mesma sombra) lhe dá a ver. As suas fraquezas e a sua natureza obscura são espelho da condição humana, dos silêncios e das ausências com que o Homem depara. Mais ainda quando busca transcender-se (metaforicamente sugerido na subida de uma colina), depois de se ter deixado ir abaixo (ao cair, de novo, na tentação da bebida; na tormentosa crise de fé; nas relações com uma jovem turista).
     No meio do desconcerto e da luta espiritual do protagonista, do trajeto de uma pintora solteirona de meia-idade e do respetivo avô (que procura compor o seu último poema), das pretensões da gerente do hotel (interpretada por Maria João Luís) não deixa de haver um grupo de turistas (alemães) alheio à perda da fé, à depressão e à crise existencial - tal como na vida de qualquer ser humano que, no desespero, não deixa de se ver rodeado de eternos otimistas ou patetas alegres, cegos ao que está para lá dos próprios umbigos. O registo da animação e da festa atravessa, por várias vezes, o palco, numa noite em que há tempestades, paraísos perdidos e buscas de portos de abrigo. Estes últimos são ainda possíveis, nomeadamente para a solteirona e estoica Hannah Jelkes (Joana Bárcia), ao construir pontes de comunicação com Shannon; para Maxine, ao atingir o seu propósito, no final, de ficar com o homem que libidinosamente desejava; para o velho Nonno (Américo Silva), ao concluir o seu poema final; para a iguana, ao regressar ao seu ambiente natural, depois de a libertarem da corda atada ao pescoço.

HANNAH: Fui ver a iguana.
SHANNON: Foi? E o que achou dela
HANNAH: Devíamos soltá-la.
SHANNON: Há iguanas que arrancam as pontas das caudas à dentada quando estão atadas pela cauda.
HANNAH: Esta está atada pelo pescoço. Não pode arrancar a cabeça à dentada para escapar da corda.

Tennessee Williams, in A Noite da Iguana

     Libertada a iguana, reencaminhado Shannon para um banho de mar com Maxine, concluída a poesia da vida que não descambou em simples verso, atinge-se um sossego (por momentâneo que seja) a soar a um "happy end" muito relativo.
      Só as palmas do público, de pé, deram a ouvir uma reação muito positiva ao espetáculo, para tanta febre e tanto tumulto representados n(est)a vida.

     Diz Tennessee Williams que esta é uma peça sobre “como viver para lá do desespero e ainda assim viver”; é a expressão de desejo da libertação - tal como a da iguana que, uma vez amarrada na parte baixa do hotel, foi solta por Shannon -, para que a vida ainda possa acontecer. Num tempo em que algumas liberdades e valores democráticos estão a sair comprometidos por extremismos, sinais de prepotência e arrogância, de políticas afastadas das pessoas, há pessoas que aspiram à libertação de iguanas (também seres de Deus); humanos que ainda lutam e desejam sobreviver em (alguma) felicidade, por mais conscientes que muitas utopias já tenham caído.

domingo, 29 de janeiro de 2017

Silêncio

    Não é ordem nem convite; antes constatação ou necessidade.

   Inspirado na obra do escritor católico japonês Shusaku Endo (1966), Silêncio é um filme a não perder pelas imagens, pela representação e pela referência cultural, mais os dilemas e desafios desconcertantes que propõe. Realizado por Martin Scorsese, retrata a epopeia nessa diáspora de jesuítas portugueses pelas missões no Oriente (nomeadamente no Japão) no século XVII. 
    No contexto da apostasia (negação da fé) e do inquietante reencontro de dois padres (Rodrigues e Garupe) com um terceiro (Ferreira) - que havia sido mentor na formação cristã deles e de muitos outros e que parecia ter renegado tudo o que ensinara -, o espectador confronta-se com os limites da fé e a necessidade (mais ou menos forçada) de abdicar de tudo aquilo em que se acredita quando o martírio (próprio ou dos outros) surge:

Trailer legendado do filme "Silence", de Martin Scorsese

     O silêncio de quem assiste às atrocidades, ao martírio e ao sacrifício pode ser expressão de impotência; o silêncio, por não haver resposta ou por se instalar a dúvida, constitui-se mais como um desafio, uma oportunidade de (re)construção para o bem comum, se não der lugar à espera do que apenas está para além de cada um de nós.
     Voltados para a educação, a catequização, a divulgação da palavra de Deus em terras nipónicas, o silêncio marca o percurso dos jesuítas representados, colocando-os sob o dilema surgido entre a crença, a fidelidade à fé e a sobrevivência dos próprios e dos que os seguem. A procura da resposta implica a questionação, a reflexão, inclusive alguma adaptação às situações. Isto é particularmente demonstrado no caminho feito pelos padres Sebastião Rodrigues (Andrew Garfield) e Cristóvão Ferreira (Liam Neeson), tornados testemunhos de uma resposta para uma realidade que, por norma, se revela incompreensível, estranha, "estrangeira" diferente.
      Procurar apenas no exterior a resposta para os dilemas vividos não é a solução. Esta passa pela interioridade, pelo silêncio, pela consciencialização de que o bem ao próprio e aos outros admite ir ao encontro de algo / de alguém; afastar de modelos / exemplos de partida; estar atento a fatores contingenciais e a processos de enculturação, de tradução de práticas e crenças que não podem deixar de se focar no bem do outro e do que ele tem de distinto.
     A articulação de Silêncio e A Missão (1986), de Rolland Joffé, são inevitáveis, no que ao missionarismo diz respeito, bem como à posição frágil a que os jesuítas missionários acabaram por ficar votados quando confrontados com o poder, nomeadamente o da própria Igreja; Silêncio vai ao ponto de explorar as forças e as fragilidades que o Homem vive na sua fé. A missão aqui é a do próprio ser humano, que necessita de procurar, encontrar em si mesmo, no silêncio e na ausência, a resposta e a presença do bem. A fé por nós acolhida é em nós que se (re)constrói, sem que ela acabe negada - e, assim, a luz brilha na escuridão.

    À entrada, o título do filme até podia convergir com o pedido do silêncio; no final, não há a banda sonora usual, nem a necessidade de se saber quem canta o tema principal. Há o silêncio que diz e significa muito mais do que qualquer outro som, ruído.

sábado, 21 de janeiro de 2017

Um julgamento com muito que se lhe diga.

       Depois do apontamento de há dias, a reflexão regressa.

     Desta feita, ela é revista a partir de um vídeo (com tradução em português do Brasil) que me fizeram chegar e que está na linha de alguns dos pressupostos que mencionei nesse apontamento:

Vídeo publicado no Grupo de Mentoria "Humana" 
(projeto de investigação da Escola-de-Redes)

    A parte da valorização do professor é significativa (e aplaudo-a). A de como chegar ao futuro é pouco sustentada, até porque dependente de muitas condicionantes que nem sempre se controlam e/ou anteveem no presente e no contexto de ação escolar. Muito do percurso a cumprir passa por uma cultura de empenho, de esforço, de persistência no trabalho, tão válidos na escola como na vida que existe para lá das paredes e dos muros das escolas. Todavia, são muitas as resistências e as culturas que algumas estruturas sociais educativas (nomeadamente algumas famílias que não convergem com tais valores) optam por contrariar, nomeadamente não ensinando o que é autoridade. Frequentemente é a escola a ter de o fazer, com um reconhecimento que muitas vezes se revela tardio.
    Uma dinâmica interativa, participada e colaborativa contribuirá para um estado de coisas bem distinto do que é julgado. E, por certo, não é sobrecarregando, fazendo mais do mesmo, apostando em inutilidades e "chicoespertismo" que o caminho se faz.
     Entre os aspetos que reconheço (a diferenciação desejada, a visão crítica da organização da escola, a relativização necessária à influência partidária na construção do currículo e de muitas orientações da escola, a adoção de múltiplos dispositivos estratégicos na avaliação, o reconhecimento dos diferentes dons e das múltiplas inteligências) e os que critico (as generalizações, o preconceito do conformismo da escola, a afirmação de imagens de escolas distintas como sendo iguais, a consideração de que nada mudou num século e de que tudo não passa de reprodução do passado, a redução da escola à dominante da costumização e do "costumer", a defesa de modelos de escola transpostos e desajustados dos contextos), fica o registo para memória futura - seja ela lá qual vier a ser. 

      Não se pode ser crítico sem o sustento do saber. Muito do progresso social e muita da evolução dos tempos também passaram e foram conseguidos pelos que andaram na escola. Não é possível fechar um caso que requer uma análise multifocada no(s) objeto(s) e objetivo(s) que o definem.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Um tempo de contrastes, se de tempo for...

      No meio de tanta coisa, nem sei por onde começar.

      Esta é a reação que revelo quando há muitos pontos e tantas outras "pontas" para pegar. 
      Tudo começa quando a pergunta surge:

      Q: Colega, gostaria que me desse a sua opinião sobre a frase "Enquanto que o luar é dissuasor para Miguel Forjaz, Matilde de Melo vê-o como sinal de liberdade": a primeira oração tem o valor de uma adverbial temporal?

   
    R: Vejo dificuldade no valor temporal, na medida em que a frase proposta reflete um contraste de entendimentos relativamente ao significado do 'luar' para duas personagens de Felizmente Há Luar! (de Sttau Monteiro).
      Ver 'enquanto' como articulador / conector temporal implicaria a aceitação da substituição dele por 'ao mesmo tempo que / durante o tempo em que' (*Ao mesmo tempo / Durante o tempo em que o luar é dissuasor para Miguel Forjaz, Matilde de Melo vê-o como sinal de liberdade), o que não se prefigura como frase aceitável, até por se estar a referir intervalos de tempo bem distintos, no que à obra mencionada diz respeito.
      O valor de temporalidade é bem evidente em sequências do tipo:
    . Enquanto esperava, lembrava-se dos momentos que haviam passado juntos ou Ouve música enquanto estuda, demonstrativas de intervalos de tempos simultâneos e/ou coincidentes para 'esperar'-'lembrar-se' e 'ouvir'-'estudar' (processos associados a um mesmo sujeito sintático e a uma simultaneidade temporal);
    . Enquanto a crise se agudizava, o desemprego disparou, exemplificativa de como uma situação pontual ('disparar') ocorre no interior de um intervalo de tempo mais lato ('agudizar');
    . Não saio da tua beira enquanto não melhorares, evidenciadora de uma situação durativa sem limites definidos para o futuro e com o conector tomado como sinónimo da expressão 'durante o tempo em que'. Neste último exemplo, é também significativo o valor de condição implicado no enunciado (cf. 'Não saio da tua beira se não melhorares').

       "Enquanto" pode apresentar valor de comparação / contraste acumulado com o de temporalidade, por exemplo, em:

    . Enquanto ela falava ao telefone, eu preparava o jantar, com os sujeitos sintáticos das orações (subordinada / subordinante) a operarem ações distintas ('falar'-'preparar') no mesmo intervalo de tempo.

      Todavia, não é impossível considerar apenas o de contraste:
      . Enquanto D. João IV apoiava Pre. António Vieira, D. Afonso VI não o via com bons olhos.

       Um último dado prende-se com o conector usado na frase proposta: "enquanto que". Seja por analogia com "ao passo que" (no contraste) ou "ao mesmo tempo que" (na temporalidade) seja por interferência do francês ("tandis que" / "pendant que"), está usada uma forma por muitos considerada inadequada à realização padronizada do português, mais conforme à construção "Enquanto o luar é dissuasor para Miguel Forjaz, Matilde de Melo vê-o como sinal de esperança". É certo, porém, que há alguns poucos estudos que vão apontando para o uso deste articulador, encarado no seu valor comparativo / contrastivo (e não temporal), ainda que seja reduzido o número de gramáticas que o consideram - lembro-me apenas de uma, a Gramática do Português, da Fundação Calouste Gulbenkian, de 2013 - vol. II, pág. 2006. Mais uma razão para a leitura contrastiva das orações e do significado do articulador / conector.

      No que toca ao valor, pode dizer-se que 'enquanto' é muito polivalente, pelo «potencial de significado» (na expressão do linguista Michael Halliday) implicado ou decorrente de significados ajustados aos contextos e ao objectivo comunicativo.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Estarei tricaidescafóbico ou parascavedecatriafóbico?!

     Não sei! Mas lá que me estão a pôr a jeito não duvido!


     Perante a novida-de de que vou pagar mais Imposto de Rendimentos Sobre Pessoas Singulares (IRS) - como se já pagasse pouco -, o dia de hoje começa em beleza! Pudera! É sexta-feira 13.
     Em apontamen-tos anteriores, tive já oportunidade de me referir a este dia e a esta doença asso-ciada ao número treze. E, sendo sexta-feira, a fobia é maior (parascavedecatriafobia ou frigatriscaidecafobia) . Tão aziago é o dia que se confirma a tradição, desta feita com o governo a anunciar a atualização das tabelas de IRS - diga-se que atualizar significa, na prática, pagar mais. É sempre bom saber isto, particularmente quando há anos o salário não é atualizado.
     Felizes e contentes, cá vamos nós, no início de mais um ano, à espera de novidades... novidades, sublinho... porque ser roubado nos rendimentos do trabalho não é nova nenhuma há algum tempo já.

   O dia tornou-se pesado, portanto! Uma bruxa ou um gato preto davam jeito. E não sou supersticioso. Tomara se fosse!

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

É de génio!

    De cada vez que me falam de justiça e de igualdade de oportunidades, apetece-me desligar o botão.

      Tudo a propósito de avaliação, alunos e a justiça que nem sempre a igualdade traz. Já o escrevi antes; retomo o tema, tanto pelas igualdades injustas como pela justiça desigual. Não é jogo de palavras. É antes a consciência de que nem tudo pode ser colocado no mesmo saco e qualquer um de nós (singular) tem de estrategicamente sobreviver no meio de muitos, no seio do plural. Não é fácil, por certo, quando as variáveis são múltiplas e a diferenciação e avaliação alternativas requerem uma gestão de tempo incompatível com a forma como muitas vezes a escola se organiza. 
      Frequentemente Einstein é citado justamente para dar conta de que, segundo ele, todos somos génios; contudo, quando se avalia um peixe pela capacidade que tem para trepar árvores, deixa-se que a vida deste seja encarada como completa inutilidade.
       É um pouco isto mesmo o que se pode deduzir desta ilustração:


     Sorte do macaco, por certo (ou, nos termos do examinador, "igualdade"). Justiça, onde estás?
     Um pouco na mesma linha vejo outras situações, distintas das de testagem. Medidas de apoio, por exemplo. Dar uma mesma resposta a problemas de natureza tão diversa soa-me a manutenção destes últimos, com mais um: o de se ter adotado uma medida que, não resultando e não alterando o estado de coisas inicial, há que justificar. Ou seja, ampliam-se, inconvenientemente, os trabalhos, as dificuldades, os caminhos que não levam a lado nenhum.
      Neste ponto de não chegada está ainda o exercício de adivinhações por que se entra, quando se pedem números para médias que reflitam resultados superiores aos do ponto de partida, como se, ao longo do processo, o retrocesso não existisse; como se o desvio nunca acontecesse; como se o erro, o engano, a falha e a perda não fizessem parte da vida. Confundir o conjuntural com o estrutural é tão erróneo como não ver no último o primeiro, por mais que este possa não ser o dominante.Tão absurda parece a situação quanto a bola de cristal ser baça e inútil o tempo gasto a prever uma certeza que não o é e que nem sempre se cumpre (mesmo no que de mais científico existe). E mesmo quando a opinião partilhada do absurdo surge, mais inconveniente se torna a insistência para avançar com o número. "Cheira", no mínimo, a compromisso tal qual Saramago o definiu: "liberdade que a nós próprios negámos" (in O Ano da Morte de Ricardo Reis - divisão III do romance), algo bem distinto daquele outro que vejo mais engajado com o princípio da vontade. 

    Quando se confunde inclusão com avaliação-classificação, sem reconhecer diferenciação e práticas alternativas assentes em criteriação em processo / construção / negociação, torna-se disfuncional o próprio sentido de educação e formação (regular ou não).

sábado, 7 de janeiro de 2017

Pela democracia por que se bateu

      Em vida de democracia chega a notícia da morte (já) esperada.

Retrato oficial de Mário Soares (pintado por Júlio Pomar) 
no Museu da Presidência da República
       Faleceu Mário Soares.
   Importante que foi, suscitou adesões e contestações públicas, como todos os grandes que não foram conformistas e que se bateram por aquilo em que acreditavam.
     Estadista (que não quis ser e no que disse não se rever) com lugar na história política portuguesa, manteve-se fiel a uma ideologia independentemente de esta, em vários momentos, ter sido mais ou menos consensual. Na governação e na presidência da república portuguesa, esteve nos momentos mais relevantes do país nos últimos cinquenta anos, sem ter deixado de, anteriormente, intervir ativa e resistentemente contra uma ditadura que o levou à prisão e ao exílio antes de 1974; sem ter desistido de imprimir um cunho libertador de totalitarismos na jovem democracia, desde então.
     O seu protagonismo (que recusou, por princípio) está indissociavelmente ligado ao combate vitorioso da democracia e da liberdade - facto que o coloca, no final dos seus 92 anos, no lado devido da História e numa posição de referência nacional e internacional reconhecidas, pelo socialismo que defendeu e ajudou a fundar em Portugal; pela sociedade democrática e pluripartidária que representou; pela integração europeia plena a que destinou o país.
     O socialista, republicano e laico que assumiu ser submeteu-se ao plebiscito popular, algumas vezes ganhando outras perdendo. Reconheceu que "Só é vencido quem deixa de lutar". Disto não pode, por certo, ser acusado. Por isto ficará na História; do mais, muitas outras histórias se contam e contarão, que não apagam o que foi o seu papel e a sua visão para o país.
   
     Herdeiros que somos do regime por que lutou, resta agradecê-lo a uma das figuras maiores, se não tiver sido a maior de todas na democracia portuguesa.