terça-feira, 7 de novembro de 2017

Grassa não tem graça

     Podia ser jogo de palavras, mas é mais do que isso. É constatação de vocabulário a dominar.

    Quando dizia hoje, numa aula, que "Grassa nos nossos dias o discurso da desgraça", uma aluna comentava que não percebia a frase; perguntava mesmo qual era a piada. Pedi esclarecimento para a questão formulada e a reação foi imediata: "Não há graça nenhuma na desgraça, pois não?"
     A oralidade tem destas coisas: representar uma palavra a partir do que se ouve e se (re)conhece, mesmo que tal não seja o que alguém diz. Confundir "grassa" com "graça" não é nada engraçado, mas, por vezes, até pode dar para rir. Contudo, o silêncio na turma era geral (fosse pelo reparo ao professor fosse porque ninguém percebia a "piada"). A forma verbal do verbo 'grassar' (alastrar, desenvolver, propagar) não foi sequer entendida, por ser frequentemente desconhecida por quem reduz ao máximo o léxico que usa (tão restrito quanto o verbo 'meter' dar para tudo, mesmo quando tal não é possível).
     Na homofonia dos termos, tornou-se previsível a reação discente, além de se constituir como uma oportunidade para se explicar a diferença das palavras, repondo uma coerência no enunciado dito que não foi (re)construída por quem o escutou.
      São vários os exemplos a que podia aqui recorrer (alguns dos quais foram já mencionados em apontamentos anteriores). O seguinte vem muito a propósito:


     
     A escrita é bem mais facilitadora na distinção; a oralidade convoca uma semelhança sonora a todo o tempo causadora de problemas ortográficos. A falha na leitura é fator impeditivo de boas práticas de escrita e, também, na aquisição de vocabulário, é certo, embora muitos outros possam ser acrescentados. Grassa por aí uma multiplicidade de razões que, não tendo graça, muito tem a ver com a limitação lexical dos nossos jovens. 

     Mais vale cair em graça do que ser engraçado, diz o povo! Talvez o diga porque grassa por aí muita coisa sem graça nenhuma ou sem interesse absolutamente nenhum, mas que muitos julgam mais engraçada ou interessante do que o que realmente é (nada se aprendendo com ela).